Em algum momento da vida, quase todos nós já nos perguntamos:
E se eu tivesse escolhido diferente?
E se eu tivesse ficado?
E se eu tivesse ido?
E se eu tivesse dito?
E se eu tivesse me calado?
O arrependimento nasce nesse espaço entre o que foi e o que poderia ter sido.
Ele faz questão de de mostrar que dói porque revela que outras possibilidades existiam naquele momento e que já não podemos voltar no tempo para vivê-las. Assim, o arrependimento não é apenas tristeza pelo passado, é a consciência tardia de uma possibilidade perdida.
Mas, não deveríamos nos indagar “por que me arrependo?”, e sim o que o arrependimento significa?
Cada escolha que fazemos elimina outras tantas possibilidades, por exemplo, ao aceitar um trabalho, deixamos de aceitar outro; ao entrar numa relação, abrimos mão de tantas as outras; ao dizer “sim”, inevitavelmente dizemos “não” a algo mais.
Isso nos mostra que estamos condenados à liberdade, o que significa que não escolher também é uma escolha. E toda escolha carrega responsabilidade.
O arrependimento, então, surge quando tomamos consciência dessa responsabilidade depois que o tempo já passou.
Mas, é importante lembrar que nenhuma decisão é feita a partir de uma consciência futura. Nós escolhemos sempre com os recursos emocionais, simbólicos e existenciais que temos naquele momento, ou seja, o “eu” que decidiu não é exatamente o mesmo “eu” que hoje julga a decisão.
E nesse cenário, talvez o que realmente machuque não seja apenas a decisão que foi tomada, mas perceber que, hoje, escolheríamos diferente.
Muitas vezes, o arrependimento não se refere apenas ao ato em si, mas à imagem que temos de nós mesmos.
Não é apenas “eu fiz isso”.
É “eu não deveria ter sido esse tipo de pessoa”.
Existe aí um confronto entre o eu concreto — situado, atravessado por medos, limites, circunstâncias — e um eu idealizado, que imaginamos que deveria ter agido com mais coragem, maturidade ou clareza.
Pensando nisso, estamos sempre em um mundo que já nos antecede, mergulhados em expectativas, normas e discursos do “se”: “Se faz assim.”, “Se deve escolher isso.”, “Se espera tal postura.”.
Às vezes nos arrependemos não porque traímos nossos próprios valores, mas porque não correspondemos a um ideal, seja nosso ou alheio. O arrependimento, então, revela não apenas o passado, mas também nossas exigências atuais.
Há algo no arrependimento que toca diretamente a experiência da finitude, pois ele nos lembra que o tempo não é reversível.
Não podemos voltar para aquela conversa e responder diferente.
Não podemos refazer aquela escolha nas mesmas condições.
Não podemos ser, novamente, quem éramos.
Isso pode gerar culpa, ruminação, autopunição, mas também pode gerar lucidez.
O arrependimento é uma forma de consciência ampliada, logo ele só existe porque algo em nós mudou. Só nos arrependemos porque já não habitamos exatamente a mesma posição existencial de antes.
Nesse sentido, o arrependimento é também um sinal de transformação.
O problema não é sentir arrependimento. O problema é o que fazemos com ele.
Podemos transformá-lo em uma prisão, repetindo mentalmente cenários alternativos que jamais se realizarão, ou podemos reconhecê-lo como um marco: ali estava o limite de quem eu era naquele momento, mas hoje, talvez eu possa escolher diferente.
O arrependimento não existe para nos condenar, mas sim para nos lembrar que ainda estamos nos tornando.
Não podemos mudar o passado, mas o que podemos fazer daqui em diante são escolhas que ainda estão em aberto.
O arrependimento nos lembra que viver é se arriscar e quem nunca arrisca, talvez seja tomado por outro tipo de dor: a das possibilidades que nunca chegaram a existir.
