Lançado em 2025, A Garota Canhota acompanha a história de três mulheres que tentam reconstruir a vida em Taipei, Taiwan. O que começa como um retrato simples de sobrevivência urbana revela, aos poucos, conflitos silenciosos sobre identidade, pertencimento e os papéis que aprendemos a ocupar dentro da família.
No centro da história está I-Jing, uma menina canhota que escuta do avô que usar a mão esquerda é errado – “a mão do diabo”. O que poderia parecer apenas uma superstição revela algo mais profundo: quando um traço espontâneo é constantemente corrigido, a criança começa a desconfiar de si.
Não é apenas sobre qual mão usar, é sobre aprender, cedo demais, que algo em você precisa ser ajustado para que sua existência seja validada.
No cotidiano, essa “mão esquerda” assume muitas formas: o excesso de sensibilidade, intensidade, silêncio demasiado ou desejo descabido. Aos poucos, a pessoa aprende a se adaptar e, ao mesmo tempo, se fragmenta.
Mas a narrativa não fala apenas da criança.
Há algo especialmente delicado na posição de I-Ann, a filha mais velha. Em muitas famílias, ser a primogênita carrega o peso de perceber antes, ceder antes e de sustentar. Em contextos de instabilidade, a filha mais velha frequentemente ocupa um lugar silencioso de apoio, mas não porque alguém formaliza isso, e sim porque alguém precisa, e ela está ali.
O risco é que, quando a função se torna central demais, a identidade pode se confundir com o papel. Essa posição costuma carregar uma culpa difusa: culpa por desejar autonomia, por falhar, por querer sair do lugar que é o esperado; como se escolher a si mesma fosse uma forma de traição ao sistema que depende dela.
O avô representa a norma, a tradição que promete pertencimento em troca de adequação.
Ajuste-se e você será aceito.
Mas toda adaptação tem um limite.
Até que ponto é possível se ajustar sem se abandonar?
Cada personagem tenta sobreviver dentro das possibilidades que tem.
O que emerge, de forma discreta, é a possibilidade de permanecer, na relação, com as responsabilidades, sem se apagar no processo.
Talvez o maior questionamento que a história deixa seja este:
Em que momento da nossa vida aprendemos que algo em nós precisava ser corrigido?
E o que fizemos com essa parte?
Escondemos? Adaptamos?
Ou ainda estamos tentando recuperá-la?
