O Agente Secreto | O que Henrique Ghirotti representa?

O Agente Secreto é uma obra nos permite reconhecer modos de existir que atravessam o nosso tempo. Isso porque, mais do que narrar uma história situada no passado, o filme tensiona formas de poder que seguem operando no presente, muitas vezes de maneira discreta e legitimada.

Neste texto, proponho um recorte específico: uma análise do personagem Henrique Ghirotti, interpretado por Luciano Chirolli. O interesse não está em classificá-lo como vilão, mas em compreender o modo de existência que ele encarna: sustentado por garantias, pela ausência de risco e pela naturalização do direito de destruir.

Ghirotti não se impõe pelo grito nem pela violência ostensiva, pelo contrário, ele raramente se exalta. Age como alguém que não precisa se justificar, pois suas decisões aparecem revestidas de normalidade, mesmo quando produzem perdas irreversíveis.

Esse tipo de vilania desloca porque rompe com a imagem clássica do vilão como alguém dominado pelo excesso ou pela paixão. Ghirotti se percebe como racional, eficiente, moderno, representando uma elite que não se vê como vilã. Por isso, a violência, em seu caso, não se apresenta como brutalidade, mas como procedimento.

Do ponto de vista psicológico, algo fundamental se perde na forma como Ghirotti se relaciona com o mundo: o reconhecimento do outro como um outro legítimo. As pessoas não aparecem como sujeitos de experiência, mas como obstáculos, recursos ou ameaças a serem administradas.

Ele habita um mundo no qual ele não se sente vulnerável. Seu corpo não é atravessado pelo medo, sua fala não carrega hesitação. Ele se move como alguém que não precisa se justificar diante do mundo, porque o mundo já lhe pertence.

Esse tipo de poder costuma se manifestar de forma discreta. Ele aparece, por exemplo, quando uma denúncia nunca avança, quando um alguém te pede para fazer vista grossa diante de uma injustiça porque não vale a pena o desgaste, quando o constrangimento é tratado como mal-entendido e o prejuízo fica com quem tem menos prestígio. E tudo segue funcionando, abafam os escândalos e não surgem rupturas.

É por isso que a vilania de Ghirotti não soa exagerada. Ela se parece demais com formas de violência que já vimos, ou vivemos, em ambientes ou com pessoas que se dizem racionais, técnicas e neutras.

Em contraste com Armando, que vive sob ameaça constante, e com Dona Sebastiana, que sustenta a vida no cotidiano, Ghirotti existe em um mundo onde o risco não o alcança. Ele não precisa se esconder, não precisa negociar sua existência.

Essa assimetria é central no filme: enquanto uns vivem com medo, outros vivem com garantias; enquanto uns precisam se deslocar para sobreviver, outros permanecem intocados, independentemente do que façam. 

Talvez o desconforto que Henrique Ghirotti provoca esteja no fato de ele não ser exagerado nem distante. Ele é possível, reconhecível e familiar. Ao olhar para esse personagem, notamos que ele se mostra como um sintoma, um retrato de como certas formas de poder continuam operando: impunes e letais. E talvez por isso ele seja tão reconhecível no nosso cotidiano.

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