“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”
Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa
Nem sempre nos damos conta quando algo termina.
Nem todo fim é abrupto, às vezes ele acontece em silêncio.
O trabalho que já não faz sentido.
A amizade que perdeu a sintonia.
A relação que continua, mas algo nela se esvaziou.
E, ainda assim, permanecemos.
Encerrar um ciclo raramente é uma mera decisão prática. É confrontar a própria finitude.
Para a Fenomenolgia-Existencial, existimos sob a condição do limite.
Não podemos viver todas as possibilidades, sustentar todas as escolhas, permanecer indefinidamente em tudo, porque escolher é também renunciar.
Quando um ciclo termina, o que se revela não é apenas a perda de algo externo, mas a impossibilidade de continuar sendo quem éramos dentro daquela experiência. E isso é doloroso para encarar.
Dói porque o futuro imaginado se desfaz, o conhecido dá lugar ao desconhecido e o fim nos lembra que somos seres limitados.
Mas, talvez o limite não seja apenas perda.
Só conseguimos compreender inteiramente algo quando ele se fecha. Enquanto estamos dentro de um ciclo, estamos imersos nele, mas quando ele termina, ganha contorno, se torna história e se integra à nossa narrativa.
O fim revela sentido.
Talvez por isso seja tão difícil aceitar que algo acabou. Permanecer pode parecer mais seguro do que enfrentar a abertura do desconhecido, mas permanecer onde já não há sentido também é uma forma de negar a própria finitude, como se pudéssemos sustentar indefinidamente o que já cumpriu seu tempo.
Talvez a pergunta mais reveladora de sentido não seja “por que isso acabou?”, mas: O que esse término revela sobre quem eu estou me tornando?
