A armadilha do “existir para o outro”

“Acorda cedo, cuida da casa, dos outros, trabalha. É a irmã presente, a filha dedicada e prestativa, a profissional esforçada. No fim do dia, sobra pouco ou nada, dela para ela mesma.”

Se fazer presente para todos, exceto para si mesmo, é um caminho solitário e cruel. O outro sempre vem em primeiro lugar, enquanto a própria voz vai se apagando, até restar apenas o silêncio, que com o tempo, torna-se ensurdecedor. 

Quando você se dá conta, já não sabe onde foi que se perdeu, quando foi que deixou de olhar para si, se é que um dia realmente se permitiu fazê-lo. 

No esforço diário de sobreviver em um mundo que exige força e nega fragilidade, aprendemos a esconder nossas dores nos lugares mais profundos. Sonhos, vontades, desejos… tudo é silenciado a fim de que possamos apenas suportar este mundo, negando a possibilidade de nos deleitarmos em nossos prazeres.

Um horizonte brilhante não parece estar nas cartas dessa vida. Acordar cedo, cuidar da casa e dos outros, cumprir papéis que nos foram impostos, manter os esforços no trabalho. Essa é a rotina.

Para quê? Para quem? 

Que outra escolha haveria? 

O cansaço toma conta. Os dias vão se arrastando e a rotina se impõe com tanta força que já não parece haver uma alternativa, senão obedecê-la. Os “porquês” vão perdendo o sentido e somos tomados por uma ansiedade silenciosa, por uma angústia inquietante e sem nome. 

Meu corpo já não parece mais me pertencer, os sentimentos tornaram-se ecos distantes. O meu presente torna-se um emaranhado das dores do passado e da escuridão incerta e ameaçadora do futuro. 

Os olhos ardem, a cabeça lateja. São tantas noites em claro, consumidas por pensamentos sobre o que poderia ter sido. 

Mas e se eu escolhesse uma nova rota? 

O que estaria por vir?

A ideia, por si só, parece demais. 

Como suportar o peso de tantas angústias que ainda nem conheço em mim?

Envolto nessa neblina, torna-se difícil acreditar que ainda haja esperança. Estaríamos, então, condenados a suportar esse ciclo vicioso, sem saída?

O caminho de volta para si é possível, embora não seja fácil, nem simples.

É muito desconfortável admitir para si mesmo suas vulnerabilidades, ninguém gosta de encarar o seu “lado sombrio”. E isso é compreensível: ao reconhecê-lo, você passa a sentir o peso do que precisa ser transformado. 

A partir desse momento, o incômodo se intensifica. Você entende que, para conquistar o que deseja, precisará rever as suas prioridades e, por vezes, ser desagradável e impor limites.

Colocar você mesmo como prioridade não é egoísmo, é ser fiel à sua existência. 

Você terá que conviver com si mesmo até o fim. 

Se você não se priorizar, quem fará isso por você?

Reconhecer isso é apenas o começo. O passo seguinte exige algo ainda mais desafiador: escolher.

Escolher se manter como está ou começar a caminhar, mesmo sem certezas.

Escolher sustentar os próprios limites, ainda que isso desagrade.
Escolher não mais se abandonar, mesmo quando o medo, a culpa ou a dúvida tentarem puxar você de volta.

Nenhuma mudança acontece sem risco. A dor não desaparece de uma hora para outra.

Assumir a própria existência é carregar o peso e o privilégio de ser quem se é.
Não para atingir uma versão perfeita de si, mas para viver de forma mais verdadeira.

A vida, afinal, é feita de escolhas — inclusive a de se enxergar como alguém que merece existir por inteiro.

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