“Nos sonhos, tudo parece real, mas ao acordar descobrimos que não é assim… Por isso, quando a gente acordar, quem sabe…”
“É sobre uma mulher que recusa a violência de uma maneira perfeccionista. Até chegar a um estado que é irreconciliável com o mundo.”
Autora Han Kang, em entrevista à Folha de S. Paulo, 21 de agosto de 2025
“(…) Passei por uma cortininha de palha, e então eu vi. Centenas de pedaços de carne, uns pedaços enormes, estavam pendurados em sarrafos. De alguns deles pingavam gotas de sangue vermelho ainda fresco. Abri caminho por incontáveis pedaços de carne, mas não conseguia encontrar a saída do outro lado. Meu vestido branco ficou completamente encharcado de sangue.”
Yeonghye teve um sonho.
E a partir desse sonho, floresce nela um despertar: parar de comer carne.
Ficamos sem saber o que ela pensa a respeito da sua escolha, pois só parece haver espaço para a narrativa daqueles que convivem ao seu redor.
Parte I | A Vegetariana
Narrativa de Cheong, o marido.
“Nunca tinha me ocorrido que minha esposa era uma pessoa especial até ela adotar o estilo de vida vegetariano. Para ser bem franco, não me senti atraído por ela na primeira vez que a vi. (…) Acabei me casando porque ela não tinha nenhum charme especial, e também por não ter notado defeitos muito gritantes. Uma personalidade dessas, sem frescor, brilhantismo ou refinamento, me deixava confortável.”
Cheong se apresenta ao leitor como a personificação do machismo e exala um apelo à mediocridade.
Frente a este ato de ousadia de Yeonghye, cheong faz questão de reforçar que ela não possui poder de fala.
Inabalado ao se deparar com o profundo sofrimento de sua esposa, não demonstra interesse, nem sequer por um momento, por uma tentativa de compreende-la.
Parte II | A Mancha Mongólica
Narrativa de Hyung, o cunhado.
“Foi nesse instante que lhe veio a imagem de uma flor azul-esverdeada, da cor do mar, saindo do meio das nádegas de uma mulher. A possibilidade de sua cunhada, irmã mais nova da sua esposa, ainda ter a mancha mongólica na bunda o intrigou. Inexplicavelmente, ele associou a informação à ideia de homens e mulheres, com flores pintadas pelo corpo, copulando, formando em sua cabeça uma clara relação de causa e efeito.”
Hyung escancara a violência da objetificação sexual.
Se aproveita sordidamente da vulnerabilidade de Yeonghye para consumar os seus próprios desejos.
Não lhe atribuem a possibilidade de ter desejos próprios, pelo contrário, impõem que se recolha à sua insignificância e atenha-se às normas impostas, para não atormentar a vida dos outros.
Parte III | A Árvore em Chamas
Narrativa de Inhye, a irmã.
“Yeonghye era quatro anos mais nova que ela. Talvez por essa distância, elas cresceram sem passar por brigas e desentendimentos, tão comuns entre irmãs. Desde a época em que apanhavam da mão pesada do pai, Yeonghye era alguém a quem ela devia proteger, alguém que despertava seu senso de responsabilidade, algo muito parecido ao instinto materno. Acompanhava com espanto e fascínio o crescimento da irmãzinha, que antes vivia de calcanhar sujo e cujo nariz se enchia de brotoejas no verão, e que crescia e já se preparava para casar. Lamentava apenas que ela falasse cada vez menos conforme ia ficando mais velha. Assim como a irmã, ela também tinha uma personalidade circunspecta, mas sabia ser simpática conforme a situação. Em contrapartida, era sempre difícil adivinhar o que se passava no coração e na cabeça de Yeonghye, tanto que às vezes a sentia como uma estranha.”
Inhye traz o olhar da vivência de uma mulher cuja pele foi ferreteada por inúmeras violências.
A partir desta narrativa, é possível dimensionar a magnitude da opressão sob a qual ambas as irmãs viviam, já existente há muito tempo, precedente à manifestação do vegetarianismo de Yeonghye.
Se observa a progressiva desumanização da mulher condenada a uma existência encarcerada. À ela é rejeitada qualquer expressão de liberdade, de modo que seu corpo encontra a diligência aos vegetais como uma forma de resistência.
Yeonghye é rapidamente condenada como louca, e com algum distúrbio mental, por uma sociedade que não reconhece outra forma de existir, de figuras femininas, que não aquelas condizentes com as normas inibidoras de qualquer expressão de desejo e quereres próprios.
Seu silêncio a torna incompreensível ao outro e tensiona a brutalidade na qual está imersa.
A leitura deste livro desperta uma reflexão que caminha na direção do que Djamila Ribeiro traz em seu livro “O que é Lugar de Fala?”, quando aponta:
“Necessariamente, as narrativas daquelas que foram forçadas ao lugar do Outro, serão narrativas que visam trazer conflitos necessários para a mudança. O não ouvir é a tendência a permanecer num lugar cômodo e confortável daquele que se intitula poder falar sobre os Outros, enquanto esses Outros permanecem silenciados.”
