Repetição na terapia

Eu sempre falo dos mesmos assuntos na terapia, isso é um problema?

Mudam os cenários, mudam as pessoas, mudam as circunstâncias, mas algo parece permanecer igual: relações que terminam do mesmo modo, escolhas que levam ao mesmo impasse, sensações recorrentes de insuficiência, abandono ou fracasso.

Na perspectiva fenomenológico-existencial, essas repetições não são vistas como erros, resistências ou falta de esforço. Elas revelam algo mais profundo: um modo de existir.

O ser humano não “tem” um passado como quem guarda um objeto numa gaveta. Nós somos históricos, ou seja, o que vivemos não fica para trás, mas sim, continua operando como maneira de compreender o mundo, os outros e a nós mesmos. Por isso, certos temas retornam, entretanto, não como coincidência, mas como expressão de uma história que ainda organiza nossas possibilidades.

A repetição, nesse sentido, não é apenas um comportamento que se repete, é uma forma de relação que se mantém.

O sofrimento psíquico expressa uma forma de mundo, de modo que cada pessoa habita um mundo próprio, composto por suas experiências, vínculos e expectativas.

Quando algo se repete de maneira rígida, isso pode indicar que o mundo vivido se tornou estreito, oferecendo sempre as mesmas possibilidades. Então, o futuro passa a ser antecipado como ameaça ou fracasso e o passado domina o presente. Em vista disso, é possível compreender que não é apenas a situação que se repete, mas o horizonte de possibilidades que permanece limitado.

Na terapia, olhar para aquilo que se repete é abrir espaço para que esse mundo, pouco a pouco, se amplie.

Ao longo das sessões, o que se repete começa a ganhar contorno, linguagem, historicidade. Aquilo que antes aparecia como “sempre acontece” pode, pouco a pouco, ser compreendido em seu sentido.

E quando o sentido se torna mais claro, a repetição tende a perder sua rigidez. Não necessariamente desaparece, mas deixa de aprisionar e a partir disso novas possibilidades começam a surgir.

Esse processo de compreensão da repetição não significa apagar a história que você viveu, consiste em retomá-la de uma forma mais própria e poder transformá-la.

Texto fundamentado na fenomenologia existencial de Martin Heidegger e Ludwig Binswanger.

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