Travessia

Na primeira vez, ao chorar não consegui chamar atenção. 

Na segunda, tentei amarrar o cadarço mais de dez vezes, mas não consegui.

Na terceira, não passei na prova, e não foi só uma vez.

Na quarta, vi meus amigos se metendo numa briga e não consegui fazer nada. 

Na quinta, me envolvi numa confusão e não consegui resolver sozinho.

Na sexta, não consegui dizer o que sentia e perdi alguém que gostava. 

Na sétima, não aguentei a pressão e fugi.  

Depois disso, desisti de tentar. 

Agora, somos apenas eu e a minha lista de fracassos, vagando dentro de mim. 

Em um primeiro momento, nem me dou conta de que escolhi viver contando os meus erros, afinal, sempre foi assim – ele estava sempre a espreita, aguardando pacientemente o momento em que eu cedesse a ele, e deixasse o meu livre arbítrio em suas mãos.

Ele sempre me ensinou que não se deve questionar. Afinal, ele tem razão — sempre teve. E eu nunca discordei. Me protegi do mundo assim. Me sentia segura.

“Não precisa nem tentar, você já sabe que não vai conseguir”

“Não precisa se preocupar, fique do jeito que está, não se sente bem em saber que não tem como piorar se continuar assim?”

“Nem o básico você consegue fazer direito, por que você acha que agora seria diferente?”

“Pra que você vai perturbar as pessoas ao seu redor, se toca, ninguém quer te ouvir”

“Você não dá valor às oportunidades, como é que alguém tão incompetente assim vai conseguir alguma coisa nessa vida?”

“Que decepção, olha só para você, não merece nada de bom mesmo”

Os dias passam, e essas palavras ressoam com cada vez mais força dentro de mim.

Ele sabe o que diz, então deve ser tudo verdade. Desde o dia em que chorei em vão, ele esteve comigo, não me abandonou quando todos foram embora.

Me ensinou a não contar com ninguém.

Foi o único a ser verdadeiro comigo ao dizer que se até eu sou uma decepção, quem eu pensava que era para esperar mais dos outros.

Ele chega sem fazer barulho, mas toma todo o ar ao redor.

Pousa a mão no meu ombro como quem já mora ali.

Suas palavras escorrem devagar, certeiras, como quem saboreia uma verdade amarga.

Sussurra com calma, porque não precisa me convencer – já sabe que me possui.

“Se contente com o que você tem, porque isso é mais do que você merece.

Não vai começar a questionar tudo, você acha que sabe mais do que eu? Por que está chorando, você acha que merece chorar?”

Desde quando o mundo é justo para todos? Então, eu engoli o choro.

Engoli mais do que o choro, foi tudo jogado lá no fundo, de onde não sei, só sei que foi longe.

Agora não preciso mais me preocupar: não sinto, não me importo, não me encanto mais por nada.

E fim, não há mais palavras a serem ditas, ele sempre teve razão.

Esperei pelo meu fim. Tinha certeza de que não me restava mais nada. 

Mas algo, lá no fundo, ainda pulsava dentro de mim.

Seria ela?

Ah, ela sempre arranja um jeito de voltar, mesmo sabendo que não é bem-vinda.

Mas, eu já não sentia, não me importava… então, por que doía? 

Eu pensava que ele já havia cuidado disso para mim – que tinha dito para ela permanecer no buraco onde havia sido jogada e que não ousasse sair dali.

Eu pertencia a ele, completamente. Mas, quem disse que ela ouviu?

Depois de um tempo largada na escuridão, ela decidiu aparecer.

Bem devagarinho, ela foi saindo do poço onde estava.

E a cada finco das suas garras nas paredes desse buraco, um pedaço de mim saía da dormência.

Ele me prometeu que se eu o escutasse, não iria mais doer – porque ele me protegeria.

Me senti dividida. Quem sou eu para ousar desafiá-lo?

E enquanto eu pensava no que fazer, ela apareceu de súbito com o meu coração em suas mãos.

Olhou no fundo dos meus olhos e disse: “se eu posso fazer isso, imagine o que ele não é capaz de fazer e você nem percebe – a diferença entre nós é que ele opera silenciosamente e amarra as minhas mãos enquanto o faz.

Ledo engano pensar que eu nunca voltaria.”

Ele percebeu que eu estava me afastando dele.

Correu para agarrar as minhas mãos e dizer para voltarmos a fazer tudo juntos.

Ela era um problema, não sabia se colocar no seu lugar.

Eu estava me sentindo sufocada, estava perdendo as forças e quase me deixando levar por quem me puxasse com mais força.

Foi aí que ela gritou e mais alguém apareceu dentro de mim. 

No meio da confusão, esse novo alguém se aproximou de mim e disse: “Eles sussurram para que você pare. Eu existo para que você continue.”

Naquele instante, não foi alívio o que senti. Foi verdade.

Não era sobre expulsá-los, nem vencê-los. Era sobre não me deixar ser só deles.

Eu ainda tinha medo.

Ainda doía.

Mas, pela primeira vez em muito tempo… eu quis me levantar e andar por mim mesma.

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